[Fechar]



[Fechar]



[Fechar]



[Fechar]



[Fechar]

"Empoderamento"(?) das Mulheres, Ferraris e Fuscas



Silvia Anspach
Sílvia Simone Anspach

Fala-se muito hoje em dia do “empoderamento” das mulheres. Creio que este termo, no entanto seja inadequado. Em primeiro lugar, trata-se de uma tradução literal, “capenga” e servil (colonizada) do termo empowerment e, como toda a tradução literal, tende a ser uma caricatura canhestra do original. Em segundo, aborda a questão do feminino e do empreendedorismo como uma questão de domínio, “poder” (power), autoritarismo. Em terceiro, trata-se de um modismo que, como muitos dentro da cartilha do “politicamente correto”, tenta resolver questões complexas por meio de mera seleção vocabular, e não através de ações profundas e consequentes, que transcendam o tempo datado das modas e dos manuais de comportamento Alia-se a isto o fato de que pressupõe que se concede a alguém (no caso específico da presente discussão, à mulher) algo que este alguém (ela)  ainda não possui.

Focalizando este último ponto, é necessário enfatizar que o processo de libertação e asserção da identidade e do mérito individual deve vir de dentro para fora. Em outras palavras, todo o “empoderamento” deveria ser um “autoempoderamento”. Trata-se, assim, antes de tudo, de um “despertar” de um valor intrínseco. A capacidade de exercer livre arbítrio, de ter “poder” (no sentido de uma subjetividade assertiva, desenvolvida de maneira plena e madura) é inata. Existe em latência em todos os seres humanos e, portanto, em todas as mulheres, independentemente de condição social, cor ou raça.

Acontece que, em muitos casos, há mulheres que não se permitem o privilégio de desenvolver seu potencial. Cabe aqui, sim, uma expressão idiomática da língua inglesa, passível de flagrar a questão de maneira muito clara: Tais mulheres tendem a ser “their own worst enemies” (seus próprios piores inimigos). Boicotam-se em suas tentativas de exercer direitos e de assumir deveres. Desenvolvem mecanismos internos de natureza predatória, buscam e/ou aceitam companheiros que as tratam como seres inferiores àquilo que elas de fato são ou podem ser. Permitem que sua autoestima, já baixa, gradualmente se anule – o que lhes rende, além de uma pecha de incompetência, uma série de transtornos psíquicos e de sintomas associados de natureza física.

Como me lembrava outro dia meu querido personal trainer, Eduardo Torquato, se somos uma Ferrari, não podemos permitir que nos tratem como um Fusca. Mas para tanto, creio eu, nós mesmas temos que nos assumir plenamente como Ferraris, ou seja, respeitar nossa essência única, maternal, criadora, inovadora, inventiva, matricial, empreendedora, corajosa, desbravadora. Se não soubermos nos valorizar, se abortarmos e sabotarmos nosso potencial empreendedor, devemos buscar apoio psicológico. Mais do que “empoderadores”, precisamos de “facilitadores”, “motivadores” e de parceiros capazes de nos ajudarem a acionar mecanismos e méritos que são essencialmente nossos. Com isso, conseguiremos reverter o automassacre assim como o massacre que a sociedade patriarcal frequentemente impetrou contra a natureza feminina.

É lícito lembrar que, nos primórdios, segundo nos lembram Campbell et allii em Todos os Nomes da Deusa, aludia-se a uma deusa como força espiritual de que emanava a vida. A própria Terra – Gaia – seria uma Grande Mãe. Cabe aqui evocar, também, o papel primordial desempenhado pelas antigas sacerdotisas e pitonisas como detentoras da Sabedoria e norteadoras da evolução do gênero humano com seus conhecimentos profundos e secretos.

Ao invés de ser empoderada de fora para dentro, a mulher deve ressuscitar por si e em si mesma o valor intrínseco ao feminino, adormecido, qual nos contos de fadas, através dos séculos. Todo o progresso nessa direção, toda a caminhada para o Futuro significa um retorno à velha Sabedoria, à Grande Mãe, tronco de onde brotam os galhos da civilização e da História. Somos deusas, Ferraris. Não nos cabe depreciação e redução à condição de meros Fuscas.

 

Retornar Artigos

 
Design by Immaginare
/* Track outbound links in Google Analytics */