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Presença feminina no topo está estagnada



Fonte: Rafael Sigollo | De São Paulo

No comando de grandes empresas, executivas como Graça Foster, Luiza Helena Trajano e Chieko Aoki têm exposição constante no mundo corporativo. A impressão que dá é a de que as mulheres, aos poucos, estão conseguindo chegar ao topo da hierarquia empresarial - e que a igualdade entre os gêneros é apenas uma questão de tempo. Mas a realidade não é bem assim. Um estudo inédito realizado pela Escola de Direito de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (Direito GV) revelou que, nos últimos dez anos, a presença feminina nos altos cargos em companhias brasileiras se manteve estagnada, com média de 8%. Isso porque enquanto a participação das mulheres na diretoria executiva aumentou de 4,2% para 7,7% nesse período, nos conselhos de administração caiu de 9,8% para 7,5%.

O professor Alexandre Di Miceli, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP), responsável por contabilizar os dados, explica que foram analisados 73.901 cargos na alta administração de 837 companhias de capital aberto, entre 1997 e 2012. "A ênfase maior, no entanto, está na última década, quando a qualidade das informações divulgadas melhorou consideravelmente", afirma.

O professor ressalta que foi preciso levar em conta variáveis como profissionais que atuam simultaneamente em mais de uma organização. Além disso, nem todas as companhias abertas analisadas eram listadas na bolsa de valores e outras cancelaram seu registro ao longo do período.

Di Miceli explica que, como nos últimos anos as mulheres fizeram avanços significativos no ingresso às universidades e ao mercado de trabalho existe uma tendência a achar que a ascensão até a diretoria, presidência e conselho também será um movimento natural. Segundo o estudo, porém, no topo da pirâmide quase nada tem mudado. "As poucas executivas e empresárias que conseguiram chegar lá recebem bastante destaque, mas ainda são exceções."

Prova disso, segundo o professor, é que nos 15 anos analisados praticamente metade das companhias de capital aberto não teve sequer uma mulher em seus conselhos de administração. Já em 66%, nenhuma profissional fez parte da diretoria executiva. "Essa sub-representação pode ser um problema tanto em termos de qualidade de tomada de decisão quanto para o aproveitamento eficiente de talentos", diz.

Ligia Paula Pires Sica, do grupo de pesquisas de direito e gênero da Direito GV, que conduziu o estudo, ressalta que muitas vezes existe uma barreira para admitir a primeira mulher nesses postos. "Depois que isso acontece, o caminho para as que vêm depois fica mais fácil", diz.

De fato, as organizações que oferecem essa oportunidade não costumam se arrepender. De acordo com o levantamento, aquelas que apresentam rentabilidade operacional mais alta possuem maior probabilidade de terem diversidade entre gêneros na diretoria executiva. Do mesmo modo, foi detectada uma relação positiva entre as diferentes métricas de valor de uma empresa e a proporção de mulheres nos conselhos de administração.

Um exemplo de como isso pode levar a um processo decisório mais eficiente é que os bancos americanos que tinham maior presença feminina no comando sofreram perdas significativamente menores na crise iniciada em 2008. "A percepção de risco é diferente, as análises se tornam mais profundas e as discussões mais ricas. Ter apenas um representante de uma minoria, porém, não adianta, pois geralmente essa pessoa não consegue colocar seus pontos de vista", alerta.

Curiosamente, a pesquisa revela que quanto maior a companhia, menor é a presença feminina nos postos mais altos. Elas também quase não têm representação nas estatais, que definem grande parte de suas posições de comando por meio de indicações políticas. Di Micelli afirma que empresas do setor de consumo são mais propensas a ter posições da alta administração ocupadas por executivas. Mesmo assim, nomes como B2W, Arezzo, Dufry e Natura nunca tiveram uma mulher em seus conselhos de administração entre 1997 e 2012.

Já as empresas familiares tendem a registrar uma maior proporção de mulheres no conselho de administração, mas isso não se reflete na diretoria executiva. "Fica claro que elas estão lá quase sempre por vínculos acionários. Ou seja, ela é membro da família controladora", afirma o professor.

Todas essas questões serão debatidas hoje no auditório da Direito GV, em São Paulo. O evento contará com os realizadores do estudo, executivos, acadêmicos e representantes do Governo Federal. "O objetivo é refletir sobre os motivos que levam o mercado a se comportar dessa maneira e a pensar em soluções que reduzam a desigualdade", afirma Lígia.

Uma sugestão do grupo é o estabelecimento de ações afirmativas que determinem participação mínima de ambos os gêneros em conselhos de administração de sociedades de economia mista e empresas públicas. Outra ideia é o oferecimento de operações de crédito de bancos de desenvolvimento com condições diferenciadas para empresas comprometidas com o tema.

A pesquisadora destaca também soluções mais práticas para as executivas como a criação de uma infraestrutura adequada no local de trabalho para auxílio na criação dos filhos e ações de mentoring, networking, coaching e treinamento a fim de inserir as mulheres nos conselhos de administração.

 

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