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Mulheres desistem da liderança por pressões interna e externa



Sobre Mulheres
Muitas executivas deixam as empresas por falta de comunicação com a chefia - Pixabay

ONU Mulheres defende que empresas precisam investir em treinamentos, mentoria e dar visibilidade às funcionárias de alto potencial


Uma pesquisa da consultoria americana McKinsey mostra que, se houvesse a equidade de gêneros no planeta, o PIB mundial teria um aumento de US$ 28 trilhões em 10 anos. Apesar do impacto direto no faturamento das companhias, apenas 10% dos cargos em comitês executivos de empresas no Brasil são ocupados por mulheres. Em posições de direção e gerência, a participação sobe para 37%, segundo números do IBGE.

Quando finalmente conseguem chegar ao topo, além da cobrança normal a ambos os sexos por resultados, as mulheres ainda sofrem pressões como julgamento pela aparência, preconceito e desconfiança, além de conflitos com a vida pessoal. Nesta jornada, muitas funcionárias de alto potencial desistem de construir uma carreira.

Especialistas dizem que, mesmo em empresas engajadas com o empoderamento feminino, a vida das executivas continua complicada, especialmente por falta de alinhamento da teoria das políticas de RH com a prática diária.

A consultoria Talenses faz parte da “Aliança para Empoderamento das Mulheres”, iniciativa de 11 instituições como Unilever, IBM e Avon. Ao fazer uma pesquisa com 25 ex-colaboradoras que haviam pedido demissão das empresas participantes, o diretor da Talenses, Rodrigo Vianna, observou que o trabalho para deixar as mulheres à vontade em seus cargos ainda será longo. A maioria das entrevistadas acredita que a saída da empresa foi motivada por aspectos comportamentais, como falta de conexão com a chefia e conflito com a vida pessoal. O fator remuneração, apesar de latente (na média, a mulher ganha 76% do salário dos homens em posição equivalente), foi pouco citado.

— A maioria das executivas não tinha interesse em sair da empresa, mas como não havia liberdade, foi se distanciando da organização com quebra dos valores e da cultura. A importância deste estudo é entender o bastidor, o que aconteceu para uma mulher de alto potencial não se transformar em alto rendimento. Toda demissão é uma perda importante na empresa que investiu tanto tempo no profissional — diz Rodrigo, lembrando que o próximo passo da pesquisa é qualificar para embasamento acadêmico e envolver mais corporações na mostra.

A barreira invisível de comunicação com a liderança masculina é outro aspecto que empurra as executivas para a desmotivação:

— Uma ex-colaboradora me relatou que, apesar de amar futebol e ter uma bandeira do clube do coração em sua mesa de trabalho, o CEO da empresa nunca tocou neste assunto com ela como fazia com os homens. Tomar um chope depois do expediente com os líderes do trabalho, sendo a única mulher entre eles, também é algo complicado — lembra ele.


A SÍNDROME DA IMPOSTORA

Além do incentivo empresarial, o modelo de criação dentro de casa precisa mudar, defende a consultora do programa de liderança feminina Springboard, Corinne Giely-Eloi. As crenças limitadoras transmitidas pelos pais (o famoso “isto não é coisa de menina”) e pela sociedade acabam restringindo as escolhas profissionais. E o fenômeno não ocorre só no Brasil: mundialmente, a mulher tem o desafio de enfrentar a luta interna para conseguir vencer.

— O programa Springboard de empoderamento e liderança é internacional: 230 mil mulheres já foram formadas em 30 países. E os problemas são iguais em qualquer parte do mundo — explica Corinne.

Erros cometidos na jornada vão de optar por um padrão masculino, cultivar a culpa, autoproclamar-se multitarefa, desconhecer a arte de delegar até ignorar a necessidade de network.

— As executivas sofrem da “síndrome da impostora”, que é quando ela conquista um cargo de liderança, senta na sua mesa e se pergunta: “será que estou no lugar certo?”, ou “que sorte a minha!”, gerando angústia. E isto ocorre pela ausência de referência de mulheres inspiradoras para dar confiança — afirma ela.

Ter insegurança (compensada com autocobrança excessiva), dificuldade de receber elogios e menosprezar as próprias competências são situações comuns, segundo Corinne.

Um exemplo deste último, lembra a consultora, é que, geralmente, a mulher precisa se sentir 100% preparada para se candidatar a um cargo. Já os homens, quando estão 70% prontos, já se colocam à disposição para a vaga.


RESPEITO AO HORÁRIO DE REUNIÕES

Em outra pesquisa feita pela Springboard, 65% das mulheres ouvidas evitaram ser líderes por achar que seriam incapazes de conciliar as tarefas de casa e trabalho. Além disso, 58% dispensaram uma promoção por achar que seria muito “estressante”.

— Poucas empresas são solidárias a este momento da mulher e os RHs também não são compreensivos. Especialmente porque as gestoras de RH, por estarem numa carreira tipicamente feminina, não enfrentaram todos os obstáculos que profissionais de outras áreas precisam superar — avalia Corinne.

Para Adriana Carvalho, gerente de empoderamento da ONU Mulheres, as empresas precisam investir em treinamentos, mentoria e dar visibilidade às mulheres de alto potencial. Mas o trabalho básico, com atitudes simples, já ajuda:

— Quando tenho uma organização em que as pessoas se disciplinam a fazer reuniões das 10h às 16h, deixando os outros horários mais flexíveis, há uma melhor dinâmica para todos — defende ela.

No caso da inexistência de uma política constituída, ela acredita que as mulheres precisam procurar redes de suporte para se empoderar.

— Há o mito de “quanto mais alto meu cargo, mais frenética e insana vai ser minha vida”. Mas quando se está no topo, o poder de fazer mudanças é maior — lembra Adriana.

Mesmo para a nova geração de líderes, os preconceitos persistem. Camila Nakagawa, de 28 anos, diretora de Comunicação da agência BETC/Havas, e há quatro anos em cargos gerenciais, acredita que as mulheres hoje estão mais preparadas para enfrentar as adversidades.

— Hoje estamos cercadas por essa discussão (muito mais do que nossas mães e chefes, no início de suas carreiras como líderes), além de estarmos munidas de mais informações. Diria que estamos mais preparadas e conscientes do que ser uma líder significa — relata ela, que cita o aplicativo Woman Interrupted, criado pela agência, que conta quantas vezes uma mulher é impedida de falar por um homem.

— Estudos mostram que médicas, estudantes e até juízas são mais interrompidas do que seus colegas homens em suas profissões. Além disso, outra pesquisa de uma universidade americana mostra que homens dominam 75% das reuniões de trabalho. Portanto, não basta que a mulher chegue a um cargo de liderança: ela ainda precisa lutar para ter o direito de falar — diz Camila.


EMPRESAS ASSINAM COMPROMISSO


Anna Paula
Anna Paula, da White Martins - Erik de Barros Pinto/Divulgação

Mais de 1.400 empresas no mundo são signatárias dos Princípios de Empoderamento da Mulher (Weps, em inglês). No Brasil, são 122. Adriana Carvalho, da ONU Mulheres, defende que esta parceria é fundamental para mudar a situação.

— No ritmo atual, serão necessários 110 anos para que haja igualdade entre homens e mulheres. O setor privado é a chave para o empoderamento econômico. Temos que unir esforços e trabalhar em conjunto — diz ela, lembrando que a ONU Mulheres lançou a iniciativa global “Por um planeta 50-50 em 2030: um passo decisivo pela igualdade de gênero”.

A White Martins é uma das empresas que assinou o compromisso. A companhia atua em um segmento da indústria majoritariamente formado por homens brancos.

— Em seis anos, a participação das mulheres aumentou em 79% nos cargos de supervisão e 45% nos gerenciais — explica Anna Paula Rezende, diretora executiva de talentos e sustentabilidade da empresa, lembrando que a companhia tem um programa de “Liderança inclusiva” para fortalecer as competências, com plano de desenvolvimento.

Na Assurant, empresa global de soluções em gestão de risco, do total de funcionários (156), 50% são mulheres e 26% ocupam cargos de chefia dentro da empresa. A diretora jurídica Ana Paula de Almeida Santos, que está na companhia desde 2011, foi para a Universidade de Harvard para aprender mais sobre empoderamento. Na volta, criou o Women Leading Business.

— Com foco para mulheres, o programa proporciona e desenvolve instrumentos para que elas não se prendam a quaisquer tipos de estereótipos e possam exercer sua liderança e suas funções de forma transparente e com confiança — conta.


Por Ana Carolina Diniz
Fonte: O Globo

Julho/2017

 

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