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O papel da mulher nas Relações Internacionais contemporâneas



Networking é fundamental para crescer na carreira (Foto: ThinkStock Photos)

Por Irany Assis*

As questões de gênero são primordiais na busca pela igualdade nas Relações Internacionais, como em todos os setores. De acordo com a área da psicologia e da neurologia, as mulheres têm habilidades verbais e os homens possuem habilidades espaciais e aritméticas. Já na comunicação, a linguagem masculina é objetiva, concisa e instrumentalizada. Enquanto a feminina é elaborada, indireta e afetiva. O campo da administração considera relevantes as diferenças robustas entre homens e mulheres no que tange a fatores de risco, confiança excessiva, comportamento competitivo e liderança.

A identidade institucional de corporações como o Exército, a Marinha e a Aeronáutica, ainda é heteronormativa. O debate sobre a questão de gênero e poder é essencial para avançar na conscientização e busca pela equidade. Pouco se sabe sobre a participação efetiva de mulheres em lutas armadas e sua participação em confrontos, guerras e guerrilhas na linha de frente. Visto que os textos evidenciam a virilidade e a honra, a presença das mulheres é cada vez mais significativa e numerosa, desestabilizando a hegemonia e provocando reflexão na sociedade.

Desde 1990 a diferença salarial entre homens e mulheres diminui, porém, ainda não atingiu o nível de equidade. O IDG (Índice de Desigualdade de Gênero) possibilita uma análise quantitativa das desigualdades ao nível do gênero. O cálculo segue quatro etapas básicas com os seguintes indicadores: TMM (Taxa de mortalidade materna), TFA (Taxa de fertilidade adolescente), PR (Distribuição dos assentos parlamentares por sexo), ES (Sucesso escolar) e TPMT (Taxa de participação no mercado de trabalho).

De acordo com o IDG de 2016, divulgado pelo Fórum Econômico Mundial, são analisadas as diferenças de oportunidades entre homens e mulheres em 144 países.

Igualdade de Gênero

Ranking Países
Islândia
Finlândia
Noruega
Suécia
Ruanda
Irlanda
Filipinas
Eslovênia
Nova Zelândia
10º Nicarágua
15º África do Sul
45º Estados Unidos
75º Rússia
79º Brasil
87º Índia
99º China
144º Yemen

Fonte: Relatório do Fórum Econômico Mundial de 2016 (Elaboração própria)

Embora a discussão sobre a igualdade de gênero seja um tema globalizado, os avanços para a diminuição sociais diminuíram e em 2016 atingiram o maior nível de disparidade desde 2008. Desta forma, a igualdade desejada levará 170 anos para ser concretizada, sendo que o relatório anterior previa 118 anos.

Amartya Sen (141:2010) afirma que o fenômeno da mortalidade e das taxas de sobrevivência artificialmente são mais baixas para as mulheres em muitas partes do mundo. Esse é um aspecto cruel e visível da desigualdade entre os sexos, que com freqüência se manifesta sob formas mais sutis. Apesar disso, as taxas de mortalidade artificialmente mais elevadas para as mulheres refletem privação de sua capacidade.

A aplicação da Teoria dos Jogos numa análise de estratégia metodológica auxilia o entendimento e influência no processo decisório de acordo com o gênero. O Jogo do Ultimato (JU), por exemplo, faz com que o proponente apresente uma proposta para uma divisão e assim, o respondente a aceita ou rejeita. A resposta positiva divide o valor de acordo com a proposta, já a negativa, faz ambos perderem e não receberem nada desta divisão.

Pesquisadores da área comportamental utilizam o formato deste jogo para avaliar se as pessoas estão dispostas a sacrificar algum valor financeiro a fim de reduzir a desigualdade ou punição de um comportamento injusto; ou se têm capacidade de antecipar quem está disposto a aceitar ofertas menos ou mais equitativas.

Princípios de Empoderamento das Mulheres (WEPs)

O Pacto Global das Nações Unidas (UNGC) juntamente com a Entidade das Nações Unidas para a Igualdade de Gênero e Empoderamento das Mulheres (ONU Mulheres) criaram alguns princípios – Women’s Empowerment Principles, em inglês – para o meio empresarial atuar com igualdade no mercado de trabalho. São eles:

  1. Liderança Promove Igualdade de Gênero

Apoio ao desenvolvimento de políticas dirigidas à igualdade de gênero e direitos humanos;

Estabelecer metas e objetivos para a igualdade em toda a empresa e incluir progressos como fator de análise;

Envolver stakeholders no desenvolvimento de políticas, programas e planos de implementação;

Assegurar que todas as políticas sejam sensíveis às questões de gênero e que a cultura corporativa avance rumo à igualdade e inclusão.

  1. Oportunidades Iguais, Inclusão e Não-discriminação

Remuneração igual para os mesmos cargos independente de gênero;

Assegurar políticas e práticas no local de trabalho livres de discriminação;

Implementar práticas de recrutamento e retenção de talentos com recorte de gênero;

Assegurar a participação suficiente de mulheres em cargos de tomada de decisão;

Oferecer opções de trabalho, licenças e oportunidades flexíveis;

Apoiar acesso ao cuidado de filh@s e dependentes.

  1. Saúde, Segurança e Ausência de Violência

Considerar impactos diferenciados sobre mulheres e homens;

Estabelecer uma política de tolerância zero a todas as formas de violência no trabalho;

Garantir acesso igualitário a tod@s @s funcionári@s;

Respeitar os direitos para licenças e acompanhamento médico;

Identificar e abordar questões de segurança;

Capacitar colaboradores para identificar sinais de violência contra as mulheres.

  1. Educação e Treinamento

Investir em políticas e programas para incentivar mulheres a ocupar postos geralmente masculinos;

Assegurar a igualdade de acesso a programas de educação e capacitação;

Proporcionar capacidades iguais para o desenvolvimento de networking e acesso a mentoring;

Apresentar vantagens para investimento no empoderamento das mulheres.

  1. Desenvolvimento Empresarial, Cadeia de Fornecimento e Práticas de Comercialização

Expandir as relações de negócios com empresas lideradas por mulheres e empreendedoras;

Apoiar ações de crédito sensíveis a gênero e soluções;

Solicitar a parceiros de negócios que respeitem o compromisso com o avanço da igualdade e inclusão;

Respeitar a dignidade das mulheres em todas as ações de comunicação e marketing;

Assegurar que produtos e serviços não sejam utilizados para tráfico humano, exploração de trabalho ou sexual.

  1. Liderança e Engajamento Comunitário

Liderar pelo exemplo;

Utilizar sua influência para defender a igualdade de gênero e colaborar com parceiros de negócios;

Trabalhar com membros da comunidade para eliminarv a discriminação e a exploração, criando oportunidades para mulheres e meninas;

Promover e reconhecer a liderança das mulheres e sua contribuição;

Utilizar programas filantrópicos e de concessão de bolsas para apoiar o compromisso da empresa com a inclusão, igualdade e os direitos humanos.

  1. Transparência, Medição e Prestação de Informações

Tornar públicas as políticas da empresa e o plano de implementação para a promoção da igualdade de gênero;

Estabelecer metas quantitativas para a inclusão das mulheres em todos os níveis;

Medir e publicar relatórios sobre os progressos com dados segmentados por sexo;

Incluir indicadores de gênero nos relatórios obrigatórios.

A participação das mulheres de forma plena na vida econômica é essencial para atingir as metas acordadas em nível internacional para o desenvolvimento, sustentabilidade e direitos humanos. Com isto, impulsiona a realização das Metas de Desenvolvimento do Milênio. Entretanto, as mulheres continuam enfrentando discriminação e exclusão nos processos de decisão.

Estes princípios refletem também os interesses governamentais e da sociedade civil, apoiando a interação entre os stakeholders. Algumas empresas já mudaram sua política de gênero, como: Safaricom, Novo Nordisk, MAS Holdings, Alcatel-Lucent, Rio Tinto, Symantec, ExxonMobil, Gap Inc, Calvert Investments e Yahoo.

A capacitação de mulheres e meninas é o único caminho para que a questão de gênero saia do discurso. Os ODS (Objetivos do Desenvolvimento Sustentável) têm como meta os 17 objetivos globais aprovados no plano de ação para promover o desenvolvimento sustentável e a erradicação da pobreza. A ONU Mulheres lançou a iniciativa global “Por um planeta 50-50 em 2030: um passo decisivo pela igualdade de gênero” em apoio à Agenda 2030. Para consolidar este plano é necessário que mulheres, homens, sociedade civil, governos, empresas, academia e meios de comunicação trabalhem em conjunto para alcançar a equidade.

Glossário Feminista

O feminismo é o movimento que luta pela equidade social, política e econômica entre os gêneros. Este, ao contrário do machismo, busca condições de igualdade para ambos, e não de superioridade. Novos termos surgiram com esta ação:

Bropropriating: conceito para o comportamento dos homens que se apropriam de ideias de mulheres utilizando-as sem o devido crédito.

Empoderamento: simultaneamente um processo e resultado na aquisição de ferramentas e atribuições de combate a opressões, fortalecendo as pessoas, independente de gênero, para desconstruir papéis impostos pela sociedade e auxiliar na luta por equidade.

Equidade: do latim aequitas, refere-se a capacidade de apreciar e julgar com retidão, imparcialidade, justiça e igualdade. Analisa de forma justa e imparcial cada caso, para que não haja desigualdades e injustiças.

Gaslighting: forma de abuso psicológico ou violência emocional, no qual o abusador omite, distorce ou inventa informações ou dados fazendo com que a vítima duvide de sua própria memória percepção e sanidade.

Gênero: é relacional e refere-se não somente a mulheres e homens, e sim às relações entre estes. É uma identidade adquirida, aprendida, que muda ao longo do tempo e varia dentro das culturas e entre elas.

Igualdade: originária do latim arqualitas é a condição, estado ou qualidade de coisas iguais, idênticas, uniformes e equivalentes. É o princípio de que todas as pessoas são iguais perante a lei, possuindo os mesmos direitos e deveres.

Lente de gênero: uma perspectiva ou lente de gênero considera os papeis atribuídos ao gênero, relações e necessidades socioeconômicas. Permite reconhecer que as relações entre mulheres e homens podem variar conforme o contexto.

Mansplaining: tradução do termo em inglês como “explicação masculina”. Comportamento do homem para explicar algo óbvio a uma mulher, como se ela não tivesse capacidade de compreensão.

Manspreading: traduzido como “homens se esparramando”, seja em transporte público, na rua ou em local fechado, se esbarrando ou sentando com as pernas abertas.

Manterrupting: do inglês “interrupção masculina”, que acontece constantemente durante a fala de uma mulher enfraquecendo sua relevância.

Slutshaming: julgamento realizado superficialmente com aversão de mulheres por dispor de sua sexualidade e de seu corpo livremente.

Sororidade: visando romper com o estigma da rivalidade, é a irmandade e solidariedade, uma união poderosa e transformadora entre mulheres fortalecendo a ação coletiva

REFERENCIAL

ARNO, F Instituições armadas, gênero e poder: reflexões para a transformação. Revista Estudos Feministas – Vol.25, no.2. Florianópolis May/Aug. 2017

Maffezzolli, Maickel Robert. PecH, Wesley. Póvoa, Angela Cristiane Santos. Silva, Wesley Vieira da. A Influência do Gênero no Processo Decisório: O Jogo do Ultimato. Revista de Administração Contemporânea –  Vol.21, no.4. Curitiba July/Aug. 2017

Planeta 50-50. Disponível em: http://www.onumulheres.org.br/planeta5050-2030/

Princípios de Empoderamento das Mulheres. Disponível em: http://portuguese.weprinciples.org/

SEN, Amartya. Desenvolvimento como liberdade: tradução Laura Teixeira Motta – São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

The Global Gender Gap Report 2016. Disponível em: http://reports.weforum.org/global-gender-gap-report-2016/


*Irany Assis é Bacharel em Relações Internacionais pela UNIP, especialista em International Trade Management pelo MIB (Massachusetts Institute of Business), pesquisadora da China e temas relacionados ao desenvolvimento. Foi fundadora e ex-presidente do CIERI-UNIP (Conselho Institucional dos Estudantes de Relações Internacionais) e Co-Fundadora da Suprema – Assessoria de Conhecimento. Atualmente é Diretora de Finanças do Núcleo de São Paulo do CEBRAPAZ (Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz) e Assessora de imprensa.

Fonte: NEMRI – Núcleo de Estudos Multidisciplinar de Relações Internacionais

Outubro/2017

 

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